sexta-feira, 16 de abril de 2010

JAULA DE FERRO


Ultimamente nada escapa à burocracia!
Em busca da garantia da máxima eficiência possível no alcance dos objetivos, a burocracia se desenvolveu dentro da administração capitalista como um modelo de organização racional capaz de caracterizar todas as variáveis, processos e comportamentos dos sistemas humanos ou empresariais.
Max Weber, o sociólogo que melhor estudou essa questão, já previa que burocratas frios e calculistas criariam sistemas cujo funcionamento burocrático se daria tal qual uma máquina de relógio e sua “profecia” foi validada na medida em que a ordem econômica criou condições e estruturas unicamente ligadas às condições técnicas e econômicas da produção e abriu abismos entre quem define e quem cumpre as regras.
Talvez, explique-se assim a tensão permanente entre os quadros administrativos das organizações e o lado mais obscuro da burocracia: o cultivo de uma cultura de poder que envolve subordinação e absolutismo.
Para as chefias burocráticas, colaboradores mais ousados são diletantes e incomodativos. A criatividade, o inconformismo, a dúvida e, muitas vezes até mesmo o compromisso com a ética são desestimulados em favor das regras e de uma postura tolerante e conivente com a lógica burocrática vigente.
Vem daí a percepção de que a burocracia é prejudicial às organizações, pois além de impor um ritmo lento na tramitação de documentos, resistirem às mudanças e centralizarem o poder, organizações burocratas podem aprisionar o homem moderno no que Weber identificava como “a jaula de ferro".
Mas será que escapar à jaula é uma atitude para qual estamos efetivamente prontos? Simplesmente quebrar suas grades dar-nos-ia condições de real liberdade?
Enquanto permanecem presas à jaula de ferro, as pessoas sentem-se seguranças e têm a certeza de conhecer o sistema e poder movimentar-se nele. A “jaula” cria identidade e faz da empresa um ambiente altamente seguro.
A total desintegração da burocracia e do capitalismo tradicional traria consigo o fim do emprego vitalício, o desaparecimento de carreiras especializadas e conseqüentemente, a sensação de estarmos todos à deriva. E estando à deriva, o mercado se fragmenta, crescem as desigualdades, a sociedade perde suas referências...
Por isso, comete um equívoco aquele que pensa que pode eliminar a burocracia. Ela é vital para a manutenção das organizações modernas, sejam elas públicas ou privadas, desde que se legitimem processos corretos e considere as pessoas e seus conflitos como esferas também a serem administradas.
Por mais paradoxal que possa parecer, o exercício da democracia não pode se abstrair da burocracia, afinal sem regras e sem identidade, as pessoas não criam raízes. Sem raízes, não se criam vínculos nem redes de relacionamentos. Sem relacionamentos, as pessoas não se articulam e não se defendem da impessoalidade de regras que devem, em sua essência, promover a igualdade de todos os cidadãos.

ANA MARIA MAGNI COELHO
Publicado no Caderno Opinião - MogiNews
17 de abril de 2010

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