Perfeição... Palavra que permeia o inconsciente de todo ser humano com maior ou menor intensidade. Perfeição profissional, intelectual, sentimental, estética e todas mais que sejam possíveis idealizar.
Desde a infância, imprime-se em nosso subconsciente a idealização do ser humano completo: príncipes encantados e super-heróis de físico e capacidades incomparáveis que jamais seriam possíveis a um “simples mortal”.
Essa utopia aplicada na vida real e cotidiana tem cultuado relações repletas de superficialidade, preconceito e depressões.
Se por um lado a busca da perfeição pode ser construtiva e levar o ser humano a dar o melhor de si em prol de melhores condições e competências; ela pode também se tornar uma perigosa arma de auto-destruição e obsessão.
Lembremos a Grécia antiga, com sua apologia fragorosa a músculos esculturais, à aparência e ao físico. Será que alguém ousaria questionar a intelectualidade e racionalismo gregos mesmo na cultura da perfeição física? Supervalorizar a imagem da perfeição não implicava na desvalorização do homem.
O problema do mundo moderno incide na busca do ser perfeito em detrimento da visão do ser real. Deixa-se de lado o entendimento da complementaridade e unidade entre o homem no seu exterior e interior. “Mente sã em corpo são”.
Criam-se mentes vazias com vidas vazias e expectativas irrealizáveis. Acreditar que tudo pode ser perfeito faz as pessoas idealizarem situações totalmente fora do seu controle. Nada que elas mesmas fazem lhes agrada, são extremamente críticas em relação a si e pior: adoram exigir, criticar e culpar os outros.
Percebendo a incoerência do ideal de ser perfeito, optam freqüentemente pelo que as tornam mais aceitas: máscaras que encubram essa mente quase irracional. A questão filosófica torna-se, então, social: o preconceito velado inunda o pré-requisito de “boa aparência”, os relacionamentos afetivos e constitui, até mesmo, uma das diversas causas discriminação.
Aquele que não se parece com o padrão incutido pela sociedade não é, portanto, digno dela. Shakespeare, que viveu no Renascimento, hoje se veria obrigado a alterar sua obra-prima: “ser ou parecer, eis a questão”.
A mente do perfeccionista normalmente está condicionada a algum modelo de doutrina moral ou religiosa e, mesmo que nem perceba, não consegue simplesmente descumprir tais cobranças. Sente-se impulsionada a, no mínimo, parecer com elas.
É na mudança da obra skakesperiana que incide o maior paradoxo entre a o mundo natural e o mundo social. Para atingir seu mais alto padrão de perfeição, lagartas passam anos em casulos, transformam-se em pupas, ninfas, até que alcançam o estágio máximo de sua evolução e voam para o mundo. Voam assumindo a cor, o tamanho e as características que lhe foram atribuídas. São perfeitas naquilo que lhes é possível!
Em busca do seu vôo de liberdade e de sua imagem perfeita, o homem esquece de sua essência em metamorfose e prefere seguir um padrão cultural e social. Se ao abrir o casulo e o espelho mostrar uma borboleta policromática em uma sociedade monocromática, o homem simplesmente não voa. Prefere bloquear sua personalidade e suas competências em troca do que a sociedade espera dele, supervalorizando o estereótipo e desvalorizando o ser. Tornam-se borboletas imperfeitamente perfeitas! Borboletas que, encontradas na natureza, seriam encaradas como anomalias, enquanto que, na humanidade, já são uma tendência global. Pessoas com carapaças incompletas que vendem o reflexo da perfeição, mas perdem a essência do ser.
ANA MARIA MAGNI COELHO
Caderno Opinião - Jornal Mogi News
10 de julho de 2010