sexta-feira, 9 de julho de 2010

IMPERFEITA PERFEIÇÃO


Perfeição... Palavra que permeia o inconsciente de todo ser humano com maior ou menor intensidade. Perfeição profissional, intelectual, sentimental, estética e todas mais que sejam possíveis idealizar.
Desde a infância, imprime-se em nosso subconsciente a idealização do ser humano completo: príncipes encantados e super-heróis de físico e capacidades incomparáveis que jamais seriam possíveis a um “simples mortal”.
Essa utopia aplicada na vida real e cotidiana tem cultuado relações repletas de superficialidade, preconceito e depressões.
Se por um lado a busca da perfeição pode ser construtiva e levar o ser humano a dar o melhor de si em prol de melhores condições e competências; ela pode também se tornar uma perigosa arma de auto-destruição e obsessão.
Lembremos a Grécia antiga, com sua apologia fragorosa a músculos esculturais, à aparência e ao físico. Será que alguém ousaria questionar a intelectualidade e racionalismo gregos mesmo na cultura da perfeição física? Supervalorizar a imagem da perfeição não implicava na desvalorização do homem.
O problema do mundo moderno incide na busca do ser perfeito em detrimento da visão do ser real. Deixa-se de lado o entendimento da complementaridade e unidade entre o homem no seu exterior e interior. “Mente sã em corpo são”.
Criam-se mentes vazias com vidas vazias e expectativas irrealizáveis. Acreditar que tudo pode ser perfeito faz as pessoas idealizarem situações totalmente fora do seu controle. Nada que elas mesmas fazem lhes agrada, são extremamente críticas em relação a si e pior: adoram exigir, criticar e culpar os outros.
Percebendo a incoerência do ideal de ser perfeito, optam freqüentemente pelo que as tornam mais aceitas: máscaras que encubram essa mente quase irracional. A questão filosófica torna-se, então, social: o preconceito velado inunda o pré-requisito de “boa aparência”, os relacionamentos afetivos e constitui, até mesmo, uma das diversas causas discriminação.
Aquele que não se parece com o padrão incutido pela sociedade não é, portanto, digno dela. Shakespeare, que viveu no Renascimento, hoje se veria obrigado a alterar sua obra-prima: “ser ou parecer, eis a questão”.
A mente do perfeccionista normalmente está condicionada a algum modelo de doutrina moral ou religiosa e, mesmo que nem perceba, não consegue simplesmente descumprir tais cobranças. Sente-se impulsionada a, no mínimo, parecer com elas.
É na mudança da obra skakesperiana que incide o maior paradoxo entre a o mundo natural e o mundo social. Para atingir seu mais alto padrão de perfeição, lagartas passam anos em casulos, transformam-se em pupas, ninfas, até que alcançam o estágio máximo de sua evolução e voam para o mundo. Voam assumindo a cor, o tamanho e as características que lhe foram atribuídas. São perfeitas naquilo que lhes é possível!
Em busca do seu vôo de liberdade e de sua imagem perfeita, o homem esquece de sua essência em metamorfose e prefere seguir um padrão cultural e social. Se ao abrir o casulo e o espelho mostrar uma borboleta policromática em uma sociedade monocromática, o homem simplesmente não voa. Prefere bloquear sua personalidade e suas competências em troca do que a sociedade espera dele, supervalorizando o estereótipo e desvalorizando o ser. Tornam-se borboletas imperfeitamente perfeitas! Borboletas que, encontradas na natureza, seriam encaradas como anomalias, enquanto que, na humanidade, já são uma tendência global. Pessoas com carapaças incompletas que vendem o reflexo da perfeição, mas perdem a essência do ser.




ANA MARIA MAGNI COELHO
Caderno Opinião - Jornal Mogi News
10 de julho de 2010

10 comentários:

  1. Texto muilo interessante, a temática me fez lembrar do livro Criação Imperfeita do físico brasileiro Marcelo Gleiser. Gleiser mostra no livro que a imperfeição rege a natureza, e talvez aí possa residir um pouco da imperfeita perfeição que inspirou Ana Maria M. Coelho a desenvolver esse texto aqui no blog.

    No mais... penso que devemos valorizar mais as imperfeições... seja das pessoas, borboletas ou mesmo do universo.

    Bruno B

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  2. Perfeitamente imperfeito, o texto leva o visitante deste lounge a refletir sobre o que realmente importa: se nossa vida é o nosso maior empreendimento, nossos valores são o seu alicerce. Tocante na medida, a imperfeição fica por conta do trema (em "frequentemente"), acento persistente tal como a celulite em um bumbum perfeito... Parabéns, Naná! Bjs. Priscilla de Sá.

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  3. "Eu penso em mudar o homem usando borboletas" disse o poeta Manoel de Barros.
    Este lounge tá mais pra um canto de reflexão e meditação do que qualquer outra coisa, gostei muito.
    Já te convidei 500 vezes pra uma reuniao da Clínica então nao vou convidar mais, já entendi que vc não tem tempo.
    Beijo grande e saudades
    Roberto Ambrosio

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  4. Priscila... Preciso urgentemente trocar o corretor ortográfico do meu computador que permanece inserindo os imperfeitos tremas nas palavras automaticamente.
    De qualquer forma, fico feliz que esteja acompanhando o Lounge.
    Costumo dizer que viver sob o alicerce dos nossos próprios valores é a tarefa mais complicada em se viver.
    Melhor do que ser perfeito socialmente é ter a certeza de nossos próprios valores.
    Um beijo, amiga...
    Naná

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  5. Meu sempre facilitador Roberto...
    Feliz com o espaço de reflexão que o Lounge propicia a você!
    Concordo que estou em débito contigo, mas quem sabe não se surpreenda com uma Borboleta nada discreta em breve?!?
    Um beijo com carinho
    Ana Maria

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  6. Bruno, obrigada pela indicação do livro.
    Vou procurá-lo para aprofundar a temática.
    Quem sabe o tema volte ao Lounge...
    Um abraço
    Ana Maria

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  7. Ana Maria, resolvi atender ao seu pedido em busca de feedback e acessei seu blog. Quer mesmo saber? achei seu texto bem relevante. Gostei das analogias que você corajosamente se propôs a fazer. Penso muito na sua direção. Se você se preocupa que somos mais valorizados pela máscara que usamos e não por nossa essência, estendo essa linha de raciocínio para as empresas. Sou um crítico delas e nem poderia ser diferente. Como consultor e professor não teria utilidade se não o fosse. Convido-a a visitar meu blog (http://www.observatoriocorporativo.blogspot.com). Tenho impressão que você vai gostar. Seguimos a mesma linha, até onde pude ver. Também gostaria do seu feedback! veja meu último post, entitulado "um olhar crítico sobre mim mesmo" (e não deixe de ver o filme abaixo)!
    Um grande abraço,
    Ricardo Castanheira

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  8. O título do artigo não poderia ser melhor. Não há nada mais imperfeito que a vida. E é justamente este seu maior encanto. Nossa busca obstinada por perfeição é culpa de convenções sociais e rótulos institucionais. E de que vale tudo isso a não ser nos censurar e extirpar o livre arbítrio? Não se trata de ser utópico ou anarquista. Quer doença mais contemporânea que a depressão? De onde ela surge? Das máscaras e armaduras que as pessoas se impõem ou se deixam vestir em nome de uma tal proclamada vida profissional que não existe. Não existe vida pessoal ou vida profissional. Existe a vida e ela é uma só. Curta e surpreendente. Quando menos esperamos, ela ensina lições que nunca imaginamos. De que adianta transferir suas identidade a uma instituição ou a um relacionamento? Um dia você acaba demitido ou o amor acaba. E aí? Você estará sem norte, sem identidade. Nunca é tarde para recomeçar, mas por que não evitar isso? Valorizar suas convicções, seus preceitos morais e sua vida é o que vale. Ninguém é uma empresa ou um relacionamento. Cada pessoa é única em sua perfeita imperfeição. Não devemos nos aperfeiçoar para um melhor desempenho profissional ou amoroso. Devemos ser sempre melhores para que nos tornemos pessoas mais interessantes, agradáveis e disponíveis para uma vida harmônica em sociedade. Não podemos tolerar o crescente "cada um por si" que impera atualmente. Não podemos aceitar que a ética seja maleável. A vida é cheia de imperfeições, erros, enganos, tropeços e por isso mesmo é encantadora e intensa. Vale cada momento. Enquanto nos deixarmos anular pelo o que os outros acham que é o melhor, felizes, talvez, serão eles. Nunca a gente.

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  9. Ana Maria,

    Os paradigmas impostos pela desequilibrada sociedade nos levam a duvidar de nós mesmos, fazendo com que sempre busquemos metas inconsequentes, as quais nos desviam do ser para o ter numa escalada vertiginosa e muitas vezes inútil.
    Quando acordamos do sonho (ou mais correto, pesadelo) que tais paradigmas fazem pairar sobre os nossos inconscientes, sentimo-nos como idiotas, porque nos deixamos levar por normas mil de pessoas que, na realidade, nada nos acrescentam.

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  10. Oi Ana super legal o texto. A natureza nos ensina como lidar com a imperfeição. Tornando-a uma eterna evolução. Simples assim :)
    Obrigado pela reflexão.
    abs

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